Engasgos na terceira idade: quando investigar?
Os episódios de engasgos em idosos não devem ser interpretados como um fenômeno normal do envelhecimento. Embora o processo de senescência envolva alterações fisiológicas na dinâmica da deglutição, denominadas presbifagia, engasgos frequentes podem indicar disfagia orofaríngea, condição que aumenta significativamente o risco de broncoaspiração, desnutrição e desidratação, que podem levar a um desfecho desfavorável.
A investigação deve ser considerada sempre que houver recorrência dos engasgos, independentemente da consistência ingerida, ou quando associados a outros sinais de alerta, como tosse reflexa ou voluntária após a deglutição, voz molhada, escape de alimento pela cavidade oral, necessidade de múltiplas deglutições para limpeza do bolo da cavidade oral ou faringe, perda de peso não intencional, febre de origem indeterminada ou histórico de infecção respiratória de repetição.
Nessas situações, é imprescindível a avaliação fonoaudiológica especializada, que pode incluir exame clínico da deglutição e exames instrumentais complementares (videofluoroscopia da deglutição ou nasofibrolaringoscopia da deglutição), para análise detalhada da deglutição e detecção de penetração ou aspiração, inclusive silenciosa.
Além da disfagia, engasgos persistentes podem estar relacionados a condições neurológicas (Doença de Parkinson, demências, acidente vascular cerebral), doenças degenerativas, alterações estruturais (estenoses, tumores) ou comprometimentos funcionais decorrentes de fragilidade muscular e redução da sensibilidade.
Portanto, a ocorrência de engasgos na terceira idade deve ser considerado sempre um sinal de alerta para investigação precoce, visando prevenção de complicações clínicas e promoção da segurança alimentar, por meio de condutas individualizadas e baseadas em evidências.
Cláudia Rossi – CRFa 1-11140-3